sexta-feira, 29 de abril de 2005

A VIDA QUE LEVO...

DENTRO...

Nem pena, nem pincel. Nem caneta, nem teclado. Nem palavras.
Sempre pensei que tudo se podia escrever. Que sempre haveria uma frase para cada sensação, uma palavra para cada expressão corporal, um som para cada sorriso ou cada lágrima.
Mas debato-me agora com o paradoxo do sentimento: sinto algo que não sou eu! Como posso ousar descrever o que sinto nas minhas entranhas, se o que sinto não sou eu? Mexe-se, toca-me por dentro, mas não sou eu.
Está mais dentro de mim do que eu alguma vez conseguirei estar, mas não recordará nada ... Quem me dera poder recordar aquilo que ele sente dentro de mim! Quem me dera senti-lo também!
É tão transcendente, mas não deixa de ser o antigo processo de reprodução da vida.

Perco as palavras quando tento descrever algo tão aparentemente simples como o sentir o meu filho dentro de mim. E por cada palavra perdida cai-me uma lágrima de júbilo.

É o milagre da vida que me vai na alma mas que o meu corpo não consegue falar.

domingo, 3 de abril de 2005

o horizonte em vertical, o que quer que isso queira dizer

"Preparo-me para repetir uma das actividades mais intensas e emocionantes que conheço: caminhar. Quem dera não viajar de nenhuma outra maneira, não ter que desperdiçar horas preciosas desta breve coisa que é a vida, transportado por comboios, autocarros e aviões, ou encolhido no automóvel - o símbolo do movimento mas que, afinal, nos conduz à mais ridícula forma de imobilidade: a posição de sentado.
A melhor percepção do mundo é-nos dada pelo ritmo dos nossos passos. Só que o mundo é demasiado grande, e tentar percorrê-lo a pé não passa de pura utopia. Guardo então as pernas para uma selecção pessoal do melhor do mundo."

(Gonçalo Cadilhe na sua escrita viajante, desta vez sobre a Patagónia, as montanhas Cerro Fitz Roy e Cerro Torre)

segunda-feira, 21 de março de 2005

FOTOCOPIA E AFIXA EM QUALQUER LATRINA

Encontrei um flyer perdido do nosso inspirador ESTRUME! Diz-se de 22 de Fevereiro, o nº 33, de ano incerto e autoria enigmática. Espero que nos arranque deste marasmo seco, extinto e infértil em que nos rebolamos aqui de há tempos para cá. Renovem-se as intenções, retomem-se os protestos não mais que metafísicos, abandonem-se as pretensões e os pudores, abraçe-se o âmago da tripa neste blog!

A Censura é profilática
A Censura protege o cidadão
A Censura é necessária à conservação da sociedade
O excesso de informação dispersa a consciência, atrofia o raciocínio e imobiliza a convicção
A Censura selecciona a informação que promove o conhecimento

Indivíduos diferentes devem estar sujeitos a Censuras diferentes, baseadas no sexo, idade, sensibilidade e interesses

Todos os indivíduos exercem formas de Censura sobre os outros, sobre o meio e sobre si próprios

A Censura permite uma visão mais clara do mundo, mais próxima de ideais e de discursos politico-sociais
A Censura faz-nos acreditar que não vivemos no meio do ESTRUME

sábado, 26 de fevereiro de 2005

Praguejar!

É o que me apraz dizer!

Pau catrapau... bumm!
Cuspidela em cima.

E mais não faço nem digo já que a culpa não, certamente, da pobre ATM. Mas em alguém ou algo tinha de descarregar o stress acumulado entre as 13h55m e as actuais 02h50m!

Dasss!!!

Bem haja todos os que conseguiram e proMINTO não ter inveja.
É verdade, desisti! (mas só por hoje)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005

O estrume está seco!

Pois, já a seca cá chegou.

Máximas:
O estrume seco não cheira.
O que não cheira não incomoda.
O que não incomoda não provoca mudança.
Não existe desenvolvimento sem mudança.

Logo, estrume seco não desenvolve!

E Protantos é assim! Máinada!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2005

Os Simples

Os simples parecem não estar na moda. Os órgãos de comunicação não falam deles. Os escritores quase os esqueceram. Os técnicos de marketing ignoram-nos. Os políticos aceitam-nos em tempos de campanha eleitoral. Os jovens não os idolatram como modelo a seguir. E os próprios quase se envergonham de se assumir.

Ser simples é ser despretensioso, disponível, capaz e cumpridor, sem necessidade de evidência ou de galanteio. Ser simples é talvez ser um pouco inocente, algo ingénuo, até vulgar, mas puro, cristalino, transparente.

Ser simples é tudo dar sem nada desejar, pretender ou aceitar. É assim como que uma coisa de outros tempos, que não importa parecer ou até estar, mas apenas ser. Difícil de ser, mas para todos os tempos.

Ser simples não tem que ver com nível cultural ou social; nem com riqueza material. O verdadeiramente simples não precisa de ser pobre ou inculto, nem de se esconder dos prazeres mundanos. Tem a firmeza suficiente para se sentir igual aos outros em qualquer tempo e em qualquer lugar.

Simples é aquele que serve dedicada e discretamente. Chefe que esquece as divisas. Professor que dispensa a cátedra. Mestre que nunca se identifica como tal. Rei apenas na sua simplicidade. Ou também na sua santidade.

Simples são aqueles que amam a Natureza. Que procuram viver de acordo com as leis universais, numa postura de paz espiritual. Que buscam a Verdade Total, assumindo a verdade possível.

Às vezes até parecem parvos, mas não o são. Cândidos, serenos, francos, mas muito duros. Suficientemente duros para manterem um sorriso nos lábios quando os parvos, de facto - coitados -, os consideram como tal. Sorriso de amor, tolerância e confiança. Sabem que todos vão um dia conquistar o direito de também serem simples. Mas não são obrigados a sê-lo. Sê-lo-ão no usufruto do seu livre-arbítrio, no desenvolvimento das suas próprias aptidões, em liberdade e amor espiritual.

Jesus, Gandhi, Martin Luther King, Nelson Mandela, Madre Teresa de Calcutá foram ou são simples como milhares ou milhões de outros seres, das mais diversas raças, das mais diversas culturas, quantas vezes no anonimato de profissões indiferenciadas, integrados nas diferentes classes sociais.

Olhar sereno, leve sorriso nos lábios, aparentando convicção de princípios e irradiando positividade esses seres mantêm permanentemente com naturalidade posições construtivas, em favor do Todo. Evitam criticar, nunca destroem e sempre estão disponíveis para servir interesses identificados como superiores, com a capacidade de se esquecerem de si próprios.

Aos simples dirigiu-se Guerra Junqueiro assim:

"Ó almas que viveis puras, imaculadas,
Na torre de luar da graça e da ilusão,
Vós que inda conservais, intactas, perfumadas,
As rosas para nós há tanto desfolhadas
Na aridez sepulcral do nosso coração;
Almas, filhas da luz das manhãs harmoniosas,
Da luz que acorda o berço e que entreabre as rosas,
Da luz, olhar de Deus, da luz, benção d'amor,
Que faz rir um nectário ao pé de cada abelha,
E faz cantar um ninho ao pé de cada flor;
Almas, onde resplende, almas onde se espelha
A candura inocente e bondade cristã,
Como num céu d'Abril o arco da aliança,
Como num lago azul a estrela da manhã;
Almas, urnas de fé, de caridade e esperança,
Vasos d'oiro contendo aberto um lírio santo,
Um lírio imorredoiro, um lírio abalastrino,
Que os anjos do Senhor vem orvalhar com pranto
E a piedade florir com o seu clarão divino;
Almas que atravessais o lodo da existência,
Este lodo perverso, iníquo, envenenado,
Levando sobre a fronte o esplendor da inocência,
Calcando sob os pés o dragão do pecado;
Benditas sejais vós, almas que esta alma adora,
Almas cheias de paz, humildade e alegria,
Para quem a consciência é o sol de toda a hora,
Para quem a virtude é o pão de cada dia!"

Os simples parecem não estar na moda, parecem não ser importantes. Mas trata-se apenas de aparências. Os verdadeiros valores sempre acabam por conquistar o direito à eternidade. São os simples que detêm o maior quinhão de sabedoria universal; a eles caberá certamente criar condições para a construção de um mundo melhor.

Luís Portela «À Janela da Vida»

quinta-feira, 20 de janeiro de 2005

12/26

A placa tectónica indiana deslocou-se, embateu com força contra a placa birmanesa, ultrapassou uma resistência há muito existente e quebrou, empurrando para cima, o fundo do mar ao largo da costa de Sumatra.

E foi só isto, cosmicamente.

domingo, 2 de janeiro de 2005

[2004] Rugas de chorar, rugas de sorrir, rugas de cantar, rugas de sentir [2005]

Desafio todos os participantes e leitores deste blog a fazerem um balanço escrito de 2004 e a publicarem-no no blog, em post ou comentário. Pode ser lista, pode ser só um de cada, do melhor e do pior, e se quiserem do mais médio e do menos médio, enfim, soltemos a letra, sejamos loucos e heróicos e balancemos o ano no início do que ainda não sabemos como vai ser. Pode ser que aproveitemos melhor algumas coisas que estão para vir, se pensarmos no que já passou. Eu por mim vou pensando nisto, foi um ano estranho. Vou pensando.
Escrevamos.

terça-feira, 7 de dezembro de 2004

1976 - a propósito de tudo isto, olhe que não, olhe que não...

Ontem vi na RTP Memória o mais famoso debate político de todos os tempos, Cunhal vs. Soares, siderou-me!

Os mediadores fumam entre perguntas e respostas, o Joaquim Letria é um rapaz, o programa faz o seu intervalo para que se possa mudar de bobine, já que é gravado e as limitações técnicas o exigem, cada um fala livremente e o debate dura horas sem fim, sem compromissos posteriores de telenovelas ou publicidade, numa luta fascinante de ideias políticas e intelecto. O compromisso é o esclarecimento do povo e este é mesmo o nome do debate! Fala-se de direita reaccionária, de ordem democrática, de movimento das forças armadas, de regime revolucionário, de liberdades e garatias, fala-se de progressistas e reaccionários, fala-se de vanguarda e conspiração, diz-se que o Sá Carneiro come criancinhas, diz-se que se se é progressista é-se comunista e se não se é comunista, é-se reaccionário, diz-se talvez não, sô tôr, talvez não...

-Se não me deixa falar, a liberdade e os métodos democráticos ficam aqui um bocado em crise!
-Fale, fale, que até gosto muito de o ouvir!
-Devem ser saneados homens que conspirem contra a democracia!
-O Dr. Cunhal tem o hábito de classificar as pessoas.
-Há sabotagem à democracia sim, e vem da direita e estou disposto a lutar contra ela mas também há sabotagens ao governo a partir dos comunistas!
-Pessoas foram espancadas para se fazer passar decretos no Ministério do Trabalho!
-Não diga isso, sô tôr...
-Nós o que queremos é que as terras não voltem para as mãos dos agrários, dos Champallimaud, dos Mello e desses que se diz que já não existem. A terra é dos trabalhadores!
-O povo sabe que eu não minto e o povo tem formas de saber e decidir quem são os progressistas e os reaccionários.
-A terra, a imprensa, a industria é dos trabalhadores, é do povo!

Nesta altura, em 1976, o povo, o velhote da aldeia recôndita, sabia o que era a reforma agrária, compreendia-a, compreendia o que lhe diziam os políticos, o que se passava ao seu redor, qual era o melhor dos caminhos propostos, mesmo que mais tarde se tenha revelado menos do que se esperava... O povo tomava o poder em forma de democracia responsável, consciente, actuante! A democracia e o acto eleitoral pululavam de vida e de vigor nas mãos do povo! Hoje o mesmo povo parece uma virtualidade democrática, um espectro alienado de opinião, despojado do poder, resignado ao sensacionalismo do entretenimento, sem alma, sem intenção, sem fome de esclarecimento. O povo só grita "Isto é um Timor autêntico, isto é um massacre!" nas suas manifestações televisivas de Canas de Senhorim a conselho. O povo não elege, o povo delega o que não quer fazer nem saber, o povo não sabe, o povo não quer saber! Será que a Democracia e o voto em 1976 valiam mais do que hoje, 2004? Hoje pensar e discutir política é inóquo, o voto é um acto fantoche? Não me parece...
Ontem impressionou-me a força de um debate de ideias; hoje são assinados acordos de 20 páginas para determinar como decorrerá o debate, são interrompidas as ideias para intervalos de compromissos publicitários, tudo soa a demagogia, não se acredita em ninguém e eu penso que mudámos todos, não se exige a verdade nem ao povo nem à classe política. E confirmo veementemente o que sempre senti, deve ter sido um tempo fantástico e perigoso este dos governos provisórios, um tempo de conspirações, de abusos, um tempo de ideias e de revolução, onde o melhor e o pior de todos se revela na sua forma mais livre e eu queria muito ter estado lá!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2004

A outra face da reacção

Sem dúvida que é muito confortável não reagir.
É contra esse conforto que eu luto e por isso gostei tanto das palavras do Daniel Sampaio. Abanar os corpos moles sentados em sofás e a engolir tudo o que a televisão e as play stations lhes dão. Não proponho outra solução porque creio que a única solução possível é devolver às pessoas o interesse pelo futuro do seu país.

Mas creio que ainda mais confortável é reagir à reacção. E para estar de moda, porque parece que está de moda estar de moda, estar em desacordo não fundamentado com certos ideais a que seguramente chamam "revolucionários de gaveta".
Pois eu não considero que seja necessário sair à rua e gritar as frases de moda (muito menos que a democracia está em perigo, porque para mim isso seria uma felicidade já que não acredito nela!) nem pintar cartazes. Ainda que me alegraria ver o povo português unido por uma causa diferente da do futebol...
Considero que faz falta educar. As palavras do Daniel Sampaio e de muitos outros, desde há já algum tempo, ensinam o que é e o que poderia ser. A decisão de quem as lê, não é mais do que isso: a sua própria decisão.

Mas tenho que confessar que me dói profundamente ver pessoas inteligentes e lutadoras , pessoas que conseguiram (por seus méritos mas também porque lhes foi dada a oportunidade de fazer valer esses méritos) atingir um nível social e intelectual muito superior à média, a perder o seu tempo a reagir contra a reacção. A gastar a sua energia em criticar aqueles, que estando tão perdidos como todos os demais, tentam buscar um caminho de escape. E dizem-lhes: "Ó meu parvo olha que por aí não há caminho". E dizem-no muitas vezes sabendo de antemão qual é o melhor caminho, mas continuam sentados na sua confortável pedra a ver como se aproxima a tormenta. E então, quando se encontram totalmente encurralados, começam a atirar pedras à tormenta e a fugir aos tropeções.

Até pode ser que o caminho não exista, mas eu prefiro ser engolida pela tormenta com a satisfação de ter tentado. A minha tentativa não foi a mais inteligente, ou a mais eficaz? É bem possível que não. Mas foi uma tentativa.

A essas mentes brilhantes que descortinam as soluções sem ter que sair do seu confortável sofá, o único que eu peço é que partilhem as suas ideias, que ensinem aqueles que não tiveram a sorte de nascer com esse dom.
Mas que por favor, não atirem pedras para dentro das próprias trincheiras.

Não foram preciso greves gerais para que se convocassem eleições, mas se elas tivessem existido, é possível que que nunca tivesse havido nenhuma crise nos meios de comunicação social, ou que não houvesse um mau funcionamento do programa de colocação de professores, ou que os 6000 contratos para investigadores não tivessem sido afinal convertidos em 6000 bolsas.

Não vai ser preciso ir votar em Fevereiro (para quê sair do sofá?, eu até nem confio em nenhum partido) mas os que o fizerem, por muito poucos que sejam, darão a sua opinião que será delegada nos seus representantes. E se eles lhes falharem , porque somos humanos!, terão todo o direito em pedir-lhes contas. Se o voto for em branco, terão dito claramente que nenhum partido apresentado lhes transmite a confiança de delegar nele as suas opiniões. Os que não tiverem votado, estarão apenas a atirar pedras à tormenta.

segunda-feira, 29 de novembro de 2004

CARTA ABERTA À GERAÇÃO DOS MEUS FILHOS

Por Daniel Sampaio


Meus Amigos: Confio em vocês. Sou a favor do fosso intergeracional e adoro que os mais novos não concordem com os mais velhos.
As sociedades avançam por rupturas, as famílias crescem emocionalmente quando se confrontam sem se afrontarem.
Cresci numa família democrática. Os meus pais estimulavam a discussão com os dois filhos e não se importavam de gastar horas a defender os seus pontos de vista. Foi assim que aos doze anos comecei a entender a democracia, quando o meu irmão, sete anos mais velho, me explicou Humberto Delgado. Não quero recordar-vos Salazar e Caetano. Sei que isso está fora do nosso (meu e vosso) tempo. Apenas quero reivindicar uma coisa: os corajosos da minha geração fizeram o 25 de Abril de 1974 para que vocês, geração dos meus filhos, crescessem em liberdade.
Quando digo a alguém da vossa idade que, há trinta anos, não se podia dizer tudo o que apetecia, quase não acreditam. Compreendo: viveram a poder exclamar o amor e a saudade, a ternura e a raiva. Quando queriam, puderam romper, sem medo, com tudo com que não concordavam.É por isso que peço para estarem muito atentos. Não uso frases do passado, género «fascismo nunca mais» ou «a democracia está em perigo».
Não é verdade, e são expressões que vos causam tédio. Quero apenas dizer-vos que, se não ousarem, falharão no essencial: deixarão de construir uma sociedade melhor para os vossos filhos (nesse aspecto, os «velhos» não falharam, vive-se hoje bem melhor do que na juventude dos meus pais). Pois bem: vejam o «governo» da República.
Portugal transformou-se no paraíso dos humoristas. Existem tantas graças sobre os nossos «governantes», que se atropelam nas cabeças dos criativos de humor. E se tantas vezes não sabemos se a «Sit Down Comedy» de Luís Filipe Borges, neste jornal, ou as páginas do Inimigo Público são notícias a brincar ou descrições realistas, a verdade é que nos assalta a certeza de que Portugal vai mal. Nesta semana vi estudantes espancados e a levarem com gás, como era habitual no meu tempo, mas julgava impossível no vosso tempo; ouvi o director-geral das Prisões a propor a redução das visitas aos presos, para melhorar o problema da droga no sistema prisional; e indignei-me com o ministro da Presidência a falar dos limites à independência, a propósito da televisão pública. Se deixarmos estes factos sem protesto, o risível «governo» que temos proporá mais: voltarão os jactos de tinta e mais prisões sobre estudantes; serão definitivamente proibidas as visitas aos presos, e o problema da droga no sistema será resolvido; os directores de programação das televisões e os directores de alguns jornais reportarão directamente ao ministro da tutela; o insucesso escolar acabará, graças a um despacho da prof. Maria do Carmo Seabra: todos os alunos com duas negativas no Natal serão automaticamente expulsos da escola. E o «governo» continuará a sorrir, centenas de conselheiros de imagem ajeitarão as gravatas dos ministros e o cabelo das ministras, todos dirão que tudo vai bem. Sei que vocês não aguentarão mais. Ouço-vos em toda a parte, por enquanto em surdina, em breve até que a voz vos doa.
E por isso vos peço: ajudem a derrubar este governo. Pela verdade e dignidade da vossa geração. Para que, tal como os vossos pais quando contaram 1974, possam dizer aos vossos filhos: sabes, fizemos um segundo 25 de Abril, só com arte e coragem, e o governo foi-se embora.

Com toda a v(n)ossa força Daniel Sampaio

sexta-feira, 26 de novembro de 2004

Lindo!!!

Acordo Ortográfico prestes a entrar em vigor

«Com a ratificação praticamente concluída, o mais provável é que no início do próximo ano se tornem oficiais as alterações à língua portuguesa acordadas pelos oito países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

(...)

Entre as alterações com a aplicação do acordo ortográfico contam-se a eliminação das consoantes mudas como o 'P' em óptimo e o 'C' em directo.

Quanto às palavras compostas que até agora eram ligadas por hífen... o hífen desaparecerá e as duas palavras passarão a uma única.»

Até o Camões trocou a pala de olho!!!


Mas... até me parece bastante interessante numa perspectiva futura em que o Português se torne uma língua internacional.


Parafraseando Fernando Pessoa: "A minha pátria é a língua portuguesa."

terça-feira, 9 de novembro de 2004

O Aquecedor

- Ouviste o que disse o aquecedor?
- Como?
- Repara na luz. Repara como muda de intensidade... Está a dizer qualquer coisa!
- Mas isso é um aquecedor, não fala!!!
- Shut!... Não ouves o murmúrio?... Está a dizer qualquer coisa!
- Mas isso é o barulho da electricidade a passar...
- Shut!... Escuta!...
- Deixa-te de tretas. Vamos embora!
- Não posso.
- Não podes?!?...
- Tenho de ficar ao pé da luz. Está a querer dizer-me qualquer coisa! É importante!...
- Importante?!? Ainda acabas é na Casa Amarela a apanhar choques eléctricos...
- Pois eu acho que há aqui uma entidade qualquer, um ser de outra dimensão, uma energia cósmica, a tentar estabelecer contacto comigo... Repara no cintilar, nas pequeninas explosões de luz... Isto não é electricidade!
- Não!... Isso não é electricidade... São miolos a fritar!
- O quê?
- Disse que tens os miolos a fritar. Deve ser do calor...
- Por acaso estou cheio de frio!... Não queres ligar o aquecedor?
- Mas tens o aquecedor no máximo! Nem sei como não te queimas, aí tão perto...
- Shut!... Escuta!...
- Bom, vou-me embora! Depois conta-me o que te disse o ET...

(Mão Morta)

segunda-feira, 8 de novembro de 2004

A sequela do Estrume

A sequela do Estrume
Hoje tou fodido!...
No nosso lindo passeio, dei cabo do joelho...
Fui ao médico e o gajo receitou-me um anti-inflamatório e disse-me: "andas a arranjar maneira de ir à faca"!
O anti-inflamatório, deu-me cabo do estômago e fiquei com uma gastrite!
Os remédio para o estômago lixaram-me os intestinos, e ainda por cima causam impotência!
Ora, por ter os intestinos mal, passei muito tempo na sanita!
Na sanita apanhei frio e fiquei com gripe!
Por causa da gripe estou com febre, dores de cabeça, dores musculares e tonturas!
Por causa das tonturas bati com o cotovelo na porta!
Ou seja, FDP de fim-de-semana!!!
Se apanha o FDP do médico, vou parti-lo todo!
Hoje tou fodido!



quinta-feira, 28 de outubro de 2004

ALGO ESTÁ MAL NO REINO DE PORTUGAL

se não vejam o seguinte comentário publicado no "Público" de hoje:

http://jornal.publico.pt/2004/10/28/sotexto/EspacoPublico/OEDIT.html

Sinto-me na obrigação de fazer qualquer coisa. Sei lá... fazer explodir uma bomba de merda no centro das principais cidades do país, de tal forma que fique escrito no chão com letras fedorentas:

ACORDAI PORTUGUESES!

sábado, 23 de outubro de 2004

O simples prazer de deitar conversa fora

Há prazeres simples que nos dão satisfações simples. Não quero nem vou tentar descrevê-los ou enumerá-los... são muitos.

Mas um é, definitivamente, mandar conversa fora com os amigos.

Assim... fora... já está!
Será necessário mais?

Para mim chega, pelo menos para hoje.

sexta-feira, 22 de outubro de 2004

Medo

Tenho medo de não estar suficientemente viva para poder morrer em paz.
Tenho medo que o mundo seja mesmo tão mau como me mostram.
Tenho medo que o ar deixe de vibrar na minha garganta e que as minhas palavras se percam em preconceitos inúteis.
Tenho medo que o teclado do meu computador deixe de existir e eu me limite a poder usar o rato.
Tenho medo que se construa uma máquina que absorva gritos e que seque lágrimas.
Tenho medo de perder as forças no dia em que decidir mudar o curso dos rios.
Tenho medo que um dedo baste para que se cortem muitos outros.
Tenho medo que roubem a Lua e que ponham um olho gigante no seu lugar.
Tenho medo de acordar um dia sem sentir medo...

segunda-feira, 18 de outubro de 2004

[5] Os preparativos

O careca-filho-da-mãe leva as lanternas – dizem que não é preciso, as cavernas têm luz eléctrica. – Então vamos todos morrer antes de reclamarmos a invenção da coca-cola. Quem nos mandou a este buraco, general? – Foi o homem da porta 24, aquele das laranjas e da mala misteriosa.
- O Homem da porta 24 falou-nos de uma hipótese remota de sairmos ilesos dos túneis. Houve um dia em que a montanha, pela primeira vez, arrotou um homem. Na verdade já lá esteve um tal de Mr. Lizardball e o sujeito não é nenhum super herói. Pelos vistos, lá dentro, não podemos correr muito e o que temos de fazer é...
- Sim?
- É simplesmente seguir as migalhas e, às apalpadelas lá descobrir que o nosso lugar não é aquele.
- Só isso? E não o trouxeram? Queremos que o sr. Lizardball nos acompanhe, eu não vou entrar ali sem ele.
- Não te preocupes. O gajo estará a observar-nos, está a observar-nos neste preciso momento... e talvez nos dê mais algumas dicas. – Como? – Perguntou a Catarina. – Não adianta explicar-te agora... tu nem sabes o que é um blog...

Do caos e dos coabitantes

Como reza a profecia: quando os heterónimos apareceram a dúvida e o mistério se instalaram. A partir daí a discussão perdeu os limites impostos por qualquer pseudo-Mahoma que alguém criou mas que ninguém conhece embora se lhe confira um certo nível de autoridade e legitimidade para a exercer.

O anonimato é perfeito mas delicado enquanto fascinante, permite o exercício de todas as liberdades mesmo as não permitidas. A delicadeza reside na impossibilidade da imputação de culpas e desculpas enquanto o fascino reside na mesma impossibilidade acrescentando a pitada de condimento (por vezes em quantidade e outras vezes até demais) que anima a própria discussão. Óptimo! Que saboroso que é!


Mas que fazer quando os ideais se confrontam?


Poderemos continuar na ânsia da discussão altiva, intelectual, alomórfica, sem, no entanto, optar definitivamente pelo anonimato ou não?

Poderá a liberdade dos identificados prevalecer coabitando com os não-identificados?

Poderão os primeiros e segundos continuar no caminho do mesmo ideal sendo uns coagidos a limites de mundos terceiros e os segundos coagidos apenas ao carácter deles mesmos?

Será viável aceitar que esta coabitação seja saudável permitindo que, em última análise, os segundos (controlados por ninguém senão eles mesmos) tenham o poder de afectar directamente e com efeitos menos positivos a identidade identificada dos primeiros? Mesmo ao ponto de extravasarem as fronteiras da virtualidade e invadirem mundos terceiros, inclusive, o real?

Há muito que faço o esforço e ceder à tentação do heterónimo sem, no entanto, ter sido crítico quanto ao uso dessa ardilosa ferramenta por outros coabitantes. Acho que a coragem reside na identificação, na verdadeira afirmação sem medos e consciente da possibilidade de outros impactos (no aquém ou mesmo no além) porque, no fundo, assumo a liberdade de expressão bem como a responsabilidade dela.

Portanto, é no meu entender, chegada a altura de repensar visto que os universos cresceram de ambos os lados das perspectivas. Foram conquistados adeptos de para ambos os lados da barricada que se começa a formar. Tal como foram reconvertidos uns e outros de um e outro lado para outro e um lado. O caos evoluiu e é o caos que promove a evolução no seu círculo em constantes dualidade que o caracteriza, paradoxalmente, tanto como virtuoso com vicioso.


E vos coloco a final questão: Quando foi que nos perdemos?


Não perdemos, dizeis alguns de vós, então como foi que nos separámos?

Vejo que estamos todos no mesmo barco mas que alguns se dizem que não mais progredimos no mesmo sentido que inicialmente idealizámos. Será que esse ideal se encontra, por força de realidade e da evolução, desactualizado?


Exijo-vos uma resposta não por vocês, não por mim, mas por uma sequela que, se existiu, não me parece que exista agora.

Porque ou estrume é merda ou estrume é bosta. E se o conteúdo vos parece o mesmo (e é!) não o é a forma! E, na forma, está o maior dos segredos sem (nunca, jamais, em tempo algum) esquecer o conteúdo: caca.

Bem hajam,

quinta-feira, 14 de outubro de 2004